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VII - O Inferno - As penas



1 – Pena do Sentido


O inferno é o lugar de todos os tormentos: Locus tormentorum (Lc 16,28). É uma prisão onde há fogo aceso; e o sopro de Deus, como torrentes de enxofre, a incendeia, para punir os pecadores: Flatus Domini sicut torrens sulphuris succedens eam (Is 30,33). O fogo: vemo-lo sempre, sabemos como é, como esguicha, arde, chia, inflama, destrói, como funde os metais... Quem não tem visto os fornos? E nos incêndios, e nas erupções dos vulcões que ruínas não causa?


Mas o fogo do inferno é bem mais terrível. Comparado com ele, o nosso se pode dizer fogo pintado, como o afirmaram S. Agostinho e S. Gregório Magno. Aquele fogo é aceso pela ira de Deus (Dt 32,22). Imaginai com a vossa fantasia o vasto terrível incêndio que lá se enfurece; a procela de chamas que envolve os condenados, e que lhes penetra nas vísceras, nas veias, no cérebro!...


O touro de Perilo – Fálaris, tirano de Agrigento (+ 549 a.C.) sentia cruel prazer ao atormentar seus súditos rebeldes. Um dia condenou ao artífice Perilo que lhe fizesse um novo engenho de suplício; e Perilo construiu um touro de bronze com a barriga oca. Dentro desse engenho devia-se pôr o homem a atormentar, acendendo por baixo dele o fogo. Que suplício terrível! Morrer lentamente dentro de um bronze abrasado!


Quando ficou pronto o engenho, o tirano, para o experimentar, pôs dentro dele o próprio Perilo. O mísero artífice soltava gemidos e gritos lancinantes que, ressoando naquele bronze, pareciam mugidos de um touro.


Um martírio semelhante foi sofrido por S. Estáquio, general romano, sob o imperador Adriano (século II). Mas esses e outros tormentos, que inventavam os tiranos, mesmo reunidos, não são nada comparados ao fogo do inferno.


2 – A pena correspondente aos pecados


Mas no inferno não há só o fogo. Diz S. Jerônimo que nesse fogo mesmo todos os condenados sentirão todos os tormentos. E este quem o pode imaginar? E como o homem em vida peca por meio dos sentidos, no inferno terá a pena correspondente aos pecados cometidos, como está dito na Escritura: “Pelas mesmas coisas com as quais alguém peca, é ele atormentado: Per quae peccat quis, per haec et torquetur” (Sab 11,17).


Os cabelos de serpentes – Santa Francisca Romana teve uma vez esta visão: certas mulheres que haviam morrido, e em vida tinham sido muito vãs e sempre inclinadas a ajeitar os cabelos, olvidando a alma, lhe apareceram num lugar de castigo e com os cabelos transformados em serpentes que mordiam continuamente o rosto daquelas desgraçadas. Eis o castigo correspondente aos pecados.


***


Todos cinco sentidos dos condenados terão seu tormento no inferno.


a) A vista – Ali, trevas pavorosas, interrompidas só pelos relâmpagos, por fulgurações sinistras que deixarão ver as caras horríveis dos demônios e dos condenados, as bocas deformadas, os olhos revirados.


Santa Catarina e a vista de um demônio – Santa Catarina de Sena, num êxtase, viu o demônio. A essa vista soltou um grito de pavor e desmaiou. Quando despertou, disse que, a ver outra vez um demônio, preferia caminhar de pés descalços sobre brasas até o dia do Juízo.


b) O ouvido – Lá se ouvirá choro e ranger de dentes (Mt 13,50); lamentos que dilaceram, acenos de ira, horríveis blasfêmias, execrandas maldições contra Deus e Jesus Redentor. Os cânticos de um condenado – Conta Mendoza que Deus fez por um momento a um servo seu ver as penas de um condenado apenas caído no inferno. Os demônios deitaram-no num leito de chamas, fizeram-no engolir enxofre fervente e lhe disseram: “Agora canta!”. E o infeliz começou assim: “Maldita hora em que nasci! Malditos os meus pais!... os companheiros que me seduziram! Os prazeres que me arruinaram!”. Depois começou a maldizer o Pai Eterno, o Divino Filho, o Espírito Santo... Eis que cânticos e músicas ouvir-se-ão naquela horrenda prisão! (Frassinetti).


***


Ó crianças que ouvis certas conversas... pensai nisso! Vós que agora não podeis suportar o choro de um menino, o latido de um cão!...


c) O olfato – Que ar fedorento e pestífero entre os corpos dos condenados, amontoados! Isaías diz: “Sairá o fedor de seus cadáveres” (Is 34,3). S. Boaventura chegou a dizer que se um corpo de condenado fosse trazido do inferno e posto nesta terra chegaria para infeccioná-la toda.


d) O paladar – Esse sentido será atormentado por fome canina e sede furiosa. “Os condenados padecerão uma fome de cães” (Sl 58,6); e comerão coisas nojentas: “Seu vinho e fel de dragões e veneno incurável de áspides” (Dt 32,33).


e) O tato – Nesse fogo torturante há espadas que cortam, fúrias que dilaceram, serpentes que mordem, demônios que flagelam. Todas as dores, todas as dilacerações cairão sobre o condenado: Omnis dolor super eum (Jó 20,22).


3 – Pena do Dano


Está dito tudo do inferno? Não! Há outros tormentos, e maiores. Mas quais? Não os compreendemos nem enquanto estamos vivos; mas o condenado os sente. Ei-los:


a) A perda de Deus, e por ser Deus maldito e por ele separado (Mt 25,41). “Essa pena é pior que mil infernos”, diz S. João Crisóstomo. Se Deus se mostrasse aos condenados, eles ficariam felizes em seus tormentos.


b) A perda do Paraíso – Essa ideia o condenado tê-la-á sempre fixa na mente: Era a minha pátria! Imaginará a torrente de felicidade entre os Anjos e os Santos... e dirá: Perdi uma felicidade tão grande!


c) Por tão pouco! – Que remorso haverá sempre para o condenado este pensamento: Estou no inferno por tão pouco! Não por cem anos de delícias, mas por um capricho... um ímpeto de vingança... prezares de um momento... pensamentos e desejos que nem foram satisfeitos... por um pecado sonegado em confissão!


d) Custava pouco salvar-se – Outro pensamento de remorso para o condenado. Dirá ele: “Deus fez-se homem por mim. Com pouco podia eu salvar-me: Bastava-me o temor de Deus... Era tão fácil praticar o bem! Mesmo caído em pecado... eu podia ressurgir e salvar-me! Não me faltavam os meios, as graças, o tempo. A culpa é toda minha: fui condenado justamente porque quis!” Mas será arrependimento inútil: por isso, oh! Que raiva! Que desespero!


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

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